Seus vizinhos pareciam ignorá-lo. Nenhum lampejo de qualquer tipo de curiosidade, nem mesmo a mórbida. Sua cólera se tornou ainda mais violenta. Primeiro quebrou a janela numa tentativa frustrada de mostrar ao mundo todo o seu ódio não mais contido. Depois, foi a vez de todo o resto que via pela frente. Livros, porta-retratos, anotações, cadeira, sofá-cama... tudo deveria ser destruído! Seus braços pareciam pesados e seus movimentos se tornaram difíceis, até levantar o pequeno abajur parecia um desafio hercúleo. Porém, seus dedos e punhos pareciam não sentir o impacto dos socos que dava no grande armário de sua minúscula sala.
Rapidamente, os resquícios de seu surto de ira cobriram tudo ao seu redor e mal podia se mover em meio aos destroços. As paredes pareciam oprimi-lo ainda mais. Queria a todo custo sair dali e foi abrir a porta da frente, mas não conseguia. Começou a tentar arrombá-la. Todavia fosse feita de uma madeira já frágil por causa do tempo e dos cupins, se mostrou um obstáculo intransponível. Não desistia e jogava partes da, agora quebrada, mesa e... NADA! Não havia parado de xingar e espernear, mas só agora parecia produzir algum barulho, era algo parecido com um gemido. Fez novo esforço para não gemer e veio um miado.
Apertou violentamente os olhos e ao abri-los, viu um gato preto na janela e eis que sua escrivaninha surgia novamente inteira diante de sua expressão incrédula- refletida na janela imunda- tal como os demais quatro ou cinco móveis de seu único cômodo. Virou-se para a pilha de despachos à sua frente e, sem proferir nem a mais singela sílaba, retornou à sua monótona rotina.
Inspirado na obra de Paul Varjak









